Carne cultivada
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Carne cultivada para saciar a ânsia alucinante

A matéria publicada ontem (11/04/2021) pelo Veganismo e Ciência abordou a tragédia do consumo de produtos animais, com base no artigo de Nicolas Treich, pesquisador da Universidade francesa Toulouse Capitole. Treich é um estudioso da veganconomia (ou veganeconomia), a economia do bem-estar animal. A matéria de hoje explora um ponto ainda mais polêmico do artigo de Treich. Trata-se da defesa do cultivo (ou cultura) de carne a partir de células animais, uma causa que, segundo ele próprio, tem sido apoiada por diversas ONGs de proteção animal. Um exemplo é a People for the Ethical Treatment of Animals (PETA). A carne cultivada já começou a ser comercializada e Treich discute suas vantagens.

As vantagens da carne cultivada

Para Treich, a carne cultivada é uma melhoria moral, quando comparada à carne convencional. Isso porque esta consiste na produção de carne a partir uma amostra de células animais e não de animais abatidos. Essas células, extraídas de tecido muscular, são então multiplicadas para constituir a carne, que dessa forma pode ser produzida em grande escala. Com isso, segundo Treich, os problemas decorrentes da manipulação, confinamento e morte de animais vivos pelos humanos, devem desaparecer.

Carne cultivada
Créditos: PublicDomainPictures / PIXABAY

Outras vantagens envolvem as características específicas do produto. Sua produção pode, por exemplo, reduzir os custos de transporte e refrigeração, em decorrência da sua vida útil – mais longa do que a carne convencional. Outra vantagem apontada pelo pesquisador é o fato de esse produto dispensar os problemas de gerenciamento de resíduos de carcaça animal.

Há também benefícios que dizem respeito à disseminação de doenças e contaminação. Treich acrescenta que a carne cultivada poderá reduzir drasticamente os riscos de doenças infecciosas emergentes, associadas ao armazenamento, produção e consumo de alimentos para animais. E a produção em condições estéreis elimina também a contaminação por microorganismos causadores de doenças.

Treich destaca ainda a possibilidade de cultivo dentro de casa durante condições externas desfavoráveis, como, por exemplo, em desastres naturais, o que aumentaria a segurança alimentar global.

As vantagens se estendem ainda à preservação dos animais selvagens. O pesquisador explica que, em função da grande quantidade de terra utilizada na criação de animais, esta é uma importante fonte de perda de biodiversidade. “Estima-se, por exemplo, que a pecuária é responsável por mais de 85% do desmatamento amazônico”, argumenta. “Espera-se que menos criação de animais aumente drasticamente o número de animais selvagens”.

Mas com a abundância de vegetais e produtos vegetais, por que produzir carne?

Em um planeta repleto de recursos vegetais, nem sempre é fácil compreender a necessidade de produzir carne. Entretanto, como Treich salienta, a maioria das pessoas é fortemente apegada à carne. “As pessoas muitas vezes não têm habilidades culinárias e suporte social para mudanças na dieta, e percebem que comer carne é normal, natural e necessário”. Ele cita pesquisas que revelam que o apego à carne prediz a aceitação da carne cultivada, mas não a aceitação da carne à base de plantas. “Isso indica que a carne cultivada poderia ser mais capaz de deslocar a demanda de carnívoros que não querem alternativas baseadas em vegetais”.

Ele argumenta ainda que “mesmo que o consumo de carne esteja diminuindo nos países desenvolvidos, está aumentando fortemente no mundo em desenvolvimento, especialmente na China e no Leste Asiático”. Certas evidências explicam esse fenômeno. Certas evidências explicam esse fenômeno. Sabe-se que, após um certo nível de renda ser atingido, ocorre uma lenta e progressiva redução no consumo de carne. Entretanto, nos países em desenvolvimento, com uma população geral em crescimento e mais rica, espera-se que a demanda por carne aumente consideravelmente. O pesquisador cita uma revisão da Food and Agriculture Organization (FAO), que projeta um aumento de 76% na quantidade total de carne consumida até 2050. Sendo assim, por mais que o número de veganos esteja em crescimento, a demanda por carne, nos países menos desenvolvidos, também estará, segundo as projeções.

De acordo com Treich, “essa tendência crescente de produção e consumo de carne nos países em desenvolvimento é um sério problema para o meio ambiente, a saúde global e a segurança alimentar no futuro”. E, para ele, “a satisfação dos consumidores de carne pode induzir forte pressão política”.

Por outro lado, o pesquisador acredita que, com a oferta da carne cultivada como alternativa bem mais amigável aos animais, os onívoros enfrentarão uma pressão social crescente na próxima década para reduzir ou evitar o consumo de carne advinda de abate de animais.

Além do mais, de acordo com Treich, pesquisas mostram que a carne cultivada pode ajudar os carnívoros a lidarem com a dissonância cognitiva – contradição entre o pensar e o agir –, uma vez que não envolve o abate de animais. A dissonância cognitiva, já comentada por aqui, resulta, nesse contexto, do paradoxo da carne. É o conflito gerado por gostar de animais ou ter compaixão por eles e mesmo assim comê-los. “Ou seja, as pessoas gostam de comer animais, mas não gostam de se sentir responsáveis ​​pelo sofrimento e matança de animais, e procuram (talvez inconscientemente) desculpas e justificativas”.

E o que acontecerá com os animais da fazenda?

Com o fim da criação de animais para abate, Treich enfatiza que os animais de fazenda não precisam desaparecer. Ele cita autores que “imaginam um mundo vegano no qual consideramos os animais de fazenda de forma diferente: os animais domesticados não devem ser nosso alimento ou nossa propriedade, mas sim nossos vizinhos, e devemos garantir a eles nada menos do que a cidadania”.

Todavia, ele ressalta que a carne cultivada pode nunca estar totalmente livre de animais, já que as células usadas na produção devem ser retiradas de algum lugar. “Ou seja, alguns animais provavelmente sempre serão necessários para fornecer as células para a produção de carne cultivada. Portanto, o desaparecimento completo dos animais de fazenda não é provável, mesmo em um cenário extremo em que toda a carne seria produzida in vitro”.

O mais difícil nesta história pode ser compreender o consumo de carne pelos humanos como algo tão indispensável que, para acabar – ou reduzir, já que não se pode esperar tão cedo tanto progresso – com o tão injusto, insano e sangrento abate de animais inocentes e indefesos, é preciso produzi-la em laboratório. Não há uma necessidade biológica, não há justificativa racional, há apenas essa ânsia que alucina, com dissonância cognitiva ou não.

O artigo completo está disponível para leitura em https://link.springer.com/article/10.1007/s10640-021-00551-3


Referências bibliográficas:

  • Nicolas Treich. Cultured Meat: Promises and Challenges. Environmental and Resource Economics 2021;79:33-61.

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