Veganofobia
Ciências sociais

Veganofobia prejudica aceitação de carne vegetal

Quanto maior a veganofobia, menor a aceitação dos hambúrgueres de origem vegetal. Essa foi uma das conclusões de uma pesquisa que analisou as opiniões de 1734 comedores de carne sobre a comparação entre hambúrgueres vegetais e bovinos. Os participantes eram consumidores da Alemanha, França e Reino Unido. O estudo foi conduzido por pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, Suíça, e da Universidade de Helsinki, Finlândia, e publicado na revista Food Quality and Preference.

Segundo a pesquisa, os participantes com uma atitude mais negativa em relação aos estilos de vida vegetariano e vegano avaliaram os hambúrgueres vegetais (no caso, feitos de ervilha ou algas) como menos saborosos, menos saudáveis ​​e menos ecológicos. Para os autores, embora os participantes concordem que as alternativas à carne não são apenas para vegetarianos ou veganos, a atitude geral negativa em relação a esses grupos não apresenta um terreno fértil para a aceitação de alternativas à carne. Na verdade, parece indicar uma relutância em mudar o consumo.

De fato, no geral, a atitude dos consumidores de carne em relação aos estilos de vida vegetariano e vegano foi considerada bastante negativa. Segundo os autores, os participantes tendem a ver os veganos como extremistas, possivelmente porque os consumidores não gostam que outros se intrometam nas suas decisões dietéticas. Os autores citam estudos que apontam vegetarianos e veganos como alvo de preconceito. Isso porque eles representam uma ameaça à norma cultural predominante de comer carne. Sendo assim, não comer carne é uma ameaça simbólica que contribui para atitudes negativas em relação a vegetarianos e veganos.

Créditos: Hatice Erol / Pixabay

Tal como já apontado em outros estudos, os autores desta pesquisa também atribuem a veganofobia ao paradoxo da carne e à dissonância cognitiva. “As pessoas gostam de comer carne, mas ao mesmo tempo também não querem fazer mal aos animais. Amar e não fazer mal aos animais de um lado e matar animais para comer do outro são dois valores que se contradizem. Assim, surge uma discrepância, o chamado paradoxo da carne”. Essa discrepância ou conflito psicológico gera o fenômeno conhecido como dissonância cognitiva. Esta faz com que as pessoas, a fim de aliviar a culpa, procurem desculpas para justificar uma atitude que não faz sentido ou que lhes parece moralmente incorreta. “Para reduzir a dissonância cognitiva, os comedores de carne preferem não pensar sobre as implicações morais de comer carne, e empregam várias estratégias para alinhar suas crenças ao seu comportamento”.

“Como os vegetarianos e veganos resolveram o paradoxo da carne ajustando seu comportamento e renunciando à carne, ter uma atitude negativa em relação aos vegetarianos e veganos pode ser outra estratégia que os onívoros usam para reduzir sua dissonância cognitiva”, afirmam os autores. Isso poderia explicar por que os participantes que eram fortemente inclinados à carne tinham atitudes mais negativas em relação aos estilos de vida vegetariano e vegano. Também explicaria, de acordo com os autores, o motivo que levou esses onívoros a atribuir, para os hambúrgueres vegetais, notas mais baixas nos quesitos sabor, saúde e respeito ao meio ambiente. De acordo com os autores, esta possível explicação está alinhada a pesquisas anteriores, que mostram que quanto mais as pessoas estão comprometidas com a carne, menos saborosas, saudáveis ​​e ecologicamente corretas são, para elas, as alternativas.

Realmente, conforme pesquisas citadas pelos autores, o apego à carne tem se mostrado negativamente correlacionado com a disposição e intenção de reduzir o consumo de carne e seguir uma dieta baseada em vegetais. Os comedores de carne comprometidos mostraram não acreditar, por exemplo, que a pecuária tem impacto nas mudanças climáticas.

Os autores acrescentam que, todavia, como mostra a literatura científica, o consumo excessivo de carne está relacionado a vários resultados negativos sobre o meio ambiente, o bem-estar animal e a saúde humana. Eles alertam que comer carne contribui com o aquecimento global, por meio da emissão de gases de efeito estufa, e uso da terra, entre outros desfechos negativos. Ainda, o consumo de carne vermelha e processada tem sido, segundo eles, associado a vários resultados adversos à saúde. “Portanto, a Organização Mundial da Saúde declarou a carne vermelha como provável cancerígena e a carne processada como causa de câncer colorretal em humanos”, advertem. Porém, eles admitem que “um dos maiores desafios para alternativas de carne para substituir com sucesso produtos de carne está em convencer os consumidores a experimentar alternativas de carne”. Finalmente, afirmam que “é crucial que as alternativas à carne excedam as expectativas de sabor dos consumidores, atualmente com pouco sabor, a fim de serem apreciadas como uma alternativa válida à carne”.

É extremamente preocupante observar que a rejeição às alternativas à carne pode estar relacionada com a rejeição aos veganos. Os resultados do estudo apontam algo que se assemelha a mera implicância, pirraça. O grande problema não é a veganofobia, nem a aversão ou implicância com veganos. O grande problema é quem são os verdadeiros prejudicados nessa história. As maiores vítimas são os animais – embora o consumo de carne afete também, negativamente, o meio ambiente e os próprios humanos. Afinal, o veganismo não é sobre veganos, é sobre animais.


Referências bibliográficas:

  • Michel F et al. A multi-national comparison of meat eaters’ attitudes and expectations for burgers containing beef, pea or algae protein. Food Quality and Preference 2021;104195.

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