bezerro leiteiro excedente
Ciências agrárias

O bezerro leiteiro excedente – “problema perverso”

O manejo do bezerro leiteiro excedente é um “problema perverso”. Essa é a conclusão apresentada por pesquisadores da Universidade British Columbia, de Vancouver, Canadá, em artigo publicado na revista científica Frontiers in Veterinary Science. Os bezerros leiteiros excedentes são todos os bezerros que não são necessários para substituir as vacas leiteiras. Eles são conhecidos como bezerros bobby e abatidos nas primeiras semanas de vida. Uma existência curta e cruel cujo único propósito é fazer a vaca produzir leite.

A produção de leite e o bobby

Parece que os consumidores de leite em geral não têm muita consciência de que, para conseguir produzir leite, as vacas precisam dar à luz um bezerro. E, segundo os autores do estudo referido nesta matéria, para que a indústria de laticínios produza leite de forma eficiente, cada vaca deve produzir um bezerro por ano. Eles informam que, em circunstâncias naturais, o bezerro seria amamentado até por volta dos sete a nove meses de idade. Entretanto, a maioria das fazendas leiteiras separa os bezerros da mãe dentro de 24 horas após o nascimento. Desses bezerros, 30 a 50% são criados para repor as vacas produtoras de leite. Os demais são chamados de excedentes ou bobby.

Os pesquisadores explicam que os bezerros excedentes ou bobby não são considerados muito adequados para produção de carne. Isso porque, desde a década de 1940, a indústria leiteira vem selecionando vacas mais eficientes em produção de leite. Essa seleção gerou um grupo de animais que não tem as características que os tornariam economicamente interessantes para a produção de carne. Todavia, de acordo com os pesquisadores, alguns desses bezerros seguem para a produção de vitela (carne de bezerro), sendo abatidos quando têm entre 16 e 18 semanas de idade. Porém, as taxas de consumo de carne de vitela estão em declínio. Muitos consumidores, comovidos com a situação dos bezerros, deixaram de consumir esse tipo de carne.

O bezerro excedente é “produto residual”

bezerro leiteiro excedente
Créditos: Marco Massimo / Pixabay.

De qualquer maneira, os pesquisadores esclarecem que o foco da indústria leiteira é a produção de leite. Nessa indústria, os bezerros excedentes têm baixo valor e, em alguns casos, são vistos como um “produto residual”. Em consequência, recebem menos cuidados do que as fêmeas que se destinam à reposição de vacas leiteiras – “de valor indiscutivelmente mais alto”, segundo os autores. Eles citam uma pesquisa canadense recente com pecuaristas, onde 9% deles afirmaram que os bezerros machos nem sempre recebiam colostro (amamentação das primeiras horas após o parto), e 17% não forneciam a mesma quantidade de ração para bezerros machos. “Isso foi ainda apoiado pelas opiniões de veterinários canadenses em um estudo, onde os participantes notaram que, se os bezerros valem vinte dólares, eles são alimentados mais ou menos, e que eles podem nem mesmo receber colostro”, relatam os pesquisadores.

A “eutanásia” dos bezerros excedentes

Os pesquisadores informaram ainda que como o valor atribuído a um bezerro é menor do que o custo de criá-lo, muitos são sacrificados na fazenda logo após o nascimento, o que seria feito por eutanásia. De acordo com o dicionário Michaelis, eutanásia é a ação de provocar a morte rápida e sem sofrimento de um ser humano ou animal. Mas não é bem isso que acontece com o bezerro leiteiro excedente. “Enquanto a maioria dos fazendeiros australianos que praticam eutanásia em bezerros o fazem com armas de fogo, o uso de trauma contundente (eutanásia por meio de um golpe violento de um objeto sólido na cabeça) continua a ser usado por alguns”, os pesquisadores revelam. Eles comentam uma pesquisa com fazendeiros canadenses, na qual cerca de 19% dos bezerros sofreram eutanásia ao nascer. Dos entrevistados que fizeram a eutanásia, 34% relataram o uso de trauma contuso (golpe).

Seja como for, para os pesquisadores, por questões éticas, o assassinato de um recém-nascido não é facilmente aceito pelo público e coloca em risco a reputação da indústria. Eles comentam a publicação em 2015 de um vídeo secreto feito em uma fazenda de laticínios que operava no Chile e era ligada à indústria de laticínios da Nova Zelândia. Esse material revelou que mais de seis mil bezerros foram mortos por trauma contuso. Os autores contam que a denúncia resultou em protestos públicos na Nova Zelândia. As manifestações foram suficientes para promulgar mudanças na Lei de Bem-Estar Animal da Nova Zelândia, tornando “ilegal matar um bezerro com força bruta na cabeça, exceto em circunstâncias de emergência”. Os pesquisadores concluem que “claramente, o fato de o bezerro excedente ser visto como dispensável, e morto imediatamente após o nascimento em algumas regiões do mundo, ou ter permissão para viver, mas receber cuidados precários, não é socialmente sustentável”. Por outro lado, mesmo sendo ilegal em algumas regiões, a prática continua.

Cegueira de celeiro

Os autores comentam que a essa realidade se aplica o conceito da “cegueira de celeiro”, que seria uma de percepção dos problemas na própria fazenda, “onde o anormal é visto como normal porque é visto todos os dias”. Para eles, essa cegueira também pode contribuir para a falta de uma mudança em larga escala. “Essa cegueira do celeiro pode ocorrer tanto no nível da fazenda quanto no nível da indústria; na verdade, algumas práticas tornam-se normalizadas por aqueles que trabalham na indústria, mas são consideradas repugnantes por outras pessoas fora da indústria”, acrescentam os autores.

Veganos são muito questionados sobre os motivos que os fazem deixar de consumir leite e produtos dele derivados. Muita gente não entende essa decisão. Bem, os motivos que fazem com que veganos evitem consumir produtos ou serviços de qualquer tipo de exploração animal vão muito além dos abordados nesta matéria. De qualquer modo, o “problema perverso” – termo empregado pelos autores do estudo aqui em questão – do manejo de bezerros ajuda a compreender a posição dos veganos. Contudo, infelizmente, sabe-se que há muito mais perversidade na indústria leiteira. Aqui, tratou-se apenas de uma pequena parte dessa história medonha.

Para quem não sabe, hoje em dia, há uma variedade de leites de origem vegetal no mercado, assim como queijos também de origem vegetal, iogurtes, sorvetes, uma infinidade de produtos, todos de origem vegetal, incluindo chocolates. São muitas opções de marcas e produtos. Vale a pena provar várias para encontrar a melhor, a mais adequada ao seu paladar. Há também uma infinidade de receitas disponíveis na internet sobre como produzir em casa leite e queijo de origem vegetal, e muito mais, por custos muito baixos. Inúmeras pessoas estão ganhando muito dinheiro com isso, gerando renda, empreendendo neste ramo, pois a procura por produtos veganos é enorme e crescente. Veganismo não é moda, é tendência em expansão. O sabor é diferente? A gente se acostuma. Experiência própria.


Referências bibliográficas:

Bolton SE, von Keyserlingk MAG. The Dispensable Surplus Dairy Calf: Is This Issue a “Wicked Problem” and Where Do We Go From Here?. Front Vet Sci 2021;8:660934. Disponível em https://www.frontiersin.org/articles/10.3389/fvets.2021.660934/full


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